"...who'd have known, when you flash upon my phone i no longer feel alone"

- Lily Allen

BitchyList

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domingo, 20 de julho de 2008

NoobTimes: Balada do Stalker - Conquista Rock Festival Day 1

Ontem discotecamos num festival de rock. E apesar de [definitivamente] metaleiros não serem nosso público ideal, foi legal se divertir ao goo' 'n' ol' rock'n'roll, da maneira suja e transgressora do gênero. Até entrevista pra TV E a gente deu! rs F*CK ME I'M FAMOUS!!!!!

Gostamos de rock! Eu, talvez, bem menos que meus amigos, mas eu gosto de indie rock, pop rock, glam rock, nu rave e essas pohas pseudo-modernas que na verdade imitam a velharia [que também me apetece]; mas coisas como metal, hard, gothic, death, infernal, capetão, blablabla não me agradam mesmo! Às vezes me tocam inusitadamente, como a banda local Liatris e sua vocalmente ousada "líder", Larissa Hyuga, que fizeram uma versão-do-metal para Take On Me do A-Ha. Tiop TEMDEMSIA!!!

Porém, o hábito é que a geração atual de rockers tende a ser altamente preconceituosa e exageradamente nostálgica. Então, mais-ou-menos como um protesto ao caretismo da cena rocker, começamos com Declare Independence* de Björk. Ninguém prestou muita atenção, mas alguns se tocaram que havia um som sendo jogado ali e que era interessante. Mesmo assim continuamos com o play-it-safe e tocamos coisas como I Bet You Look Good On The Dancefloor* dos Macacos do Ártico e 20 Year Old Lover* da ultra-tesão Juliette And The Licks, passando por Sunday Morning do No Doubt, que botou alguns pra requebrar com sua leve pegada ska.

Depois de umas várias cervejas ligamos o fuckoff! e transformamos a bagaça em um dancefloor eclético, com rocks dançantes à lá Franz Ferdinand e electro-pops Yellianos. Alguns metaleiros vieram dar dedo enquanto Tecktonik-ávamos no palco, mas estava tudo tão divertido que dedei os caras de volta e continuei rebolando.

No fim das contas estávamos ultra cansados pela pilha de tentar agradar um público beeeeeeeem diferente da gente, mas pra-lá-de satisfeitos por termos sido simplesmente nós mesmos [em alguns momentos até demais] e, assim, conquistando opiniões positivas de quem interessava [business! business! business!].

Hoje, tem mais: entraremos mais cedo para fazerem as moscas e garfanhotos dançarem enquanto os Seus Lobos do metal não vêm.

*Na BitchyList, na pasta Stalker.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Odeio Sonhos


[Toque a música enquanto lê. (Postado originalmente em Life's A Bitch.)]
E lá estava eu em meu quarto, quando a cabeça dele aparece pela porta. Foi uma grande surpresa tê-lo aqui, e disse isso a ele. Ele me lançou um sorriso brilhante que titilou as bases dos meus joelhos; estava mais lindo que nunca, com seu cabelo jogado para trás pelo lado, como numa foto dos anos 1960, ou, se você prefere ser um tanto cínico, como esses garotos Indies, tão comuns de hoje em dia. Mas não havia nada de comum nele; ele sabe mais sobre Literatura, Filosofia e Cinema de Arte que qualquer outra pessoa que eu conheça. Claro que inicialmente aquilo abalou meu ego, deixando-me desconfortável diante dele e seus inteligentíssimos amigos... mas um drink ou outros depois eu já estava mais ansioso para aprender sobre seu mundo do que compará-lo com o meu, então peguei e fui com a onda... mas talvez eu tenha ido longe demais e acabei desmaiando e vomitando minha camiseta. Na minha mente, tudo que havia na dele era que eu não passava de um bobinho, portanto minha surpresa ao ver a cabeça dele pela porta.
Ele e seu sorriso vieram em minha direção, me abraçaram e disseram que eu fazia falta. Adoro quando isso acontece: quando sentem minha falta. Sempre me dá esse frio na barriga, como o calor interno após um gole de cappuccino. Seu abraço era tão tépido quanto isso, de fora para dentro e esse bonito desejo me possuiu quando o abraço começou e manteve-se durante todo o tempo em que tive seus braços ao meu redor. Você nunca aparece, daí temos que vir até aqui, ele disse, deixando-me e sentando à beira da cama. Ele acendeu um cigarro e eu apenas o assistia. Por que ele me atrai, pensei em silêncio, enquanto observava os raios de sol refletidos sobre seu braço de pele branca, ricochetearem por todo o quarto.
Recebi seu sorriso mais uma vez e acendi um cigarro, enquanto subia na cama e deitava atrás dele; ele virou e deitou ao meu lado, nossas faces uma em frente à outra. A luz agora não era tão especial, mas eu podia ver-me refletido em suas pupilas. Sua voz contou-me as notícias da cidade que eu relutava em voltar, até que perguntei de seu ex e como estava a relação. Da última vez que conversamos, ele disse-me que estavam dando um tempo e, devo confessar, que uma faísca acendeu em mim, mas ele imediatamente disse que o amava e tinha saudades terríveis. O mesmo foi repetido, exceto pelo adjetivo dramático.
O problema de perguntar tais coisas para amigos aos quais você tem certa queda é que há o risco de ouvir um grande monólogo sobre os predicados da outra pessoa. Bingo! Ele contou-me sobre a última vez que se encontraram e apesar de meus olhos estarem fixos nos dele, minha mente havia andado milhas daquele ponto, até que ela foi abruptamente trazida de volta ao quarto, ao sentir seus lábios ansiosos tocarem os meus e sua língua penetrar minha boca. Um vulcão estourou dentro de mim, fazendo meus braços derramarem-se ao redor de seu pescoço, enquanto os dele amarravam-se à minha cintura e me puxavam para dentro dele.
Seus lindos olhos castanho estavam fechados, mas no momento em que abri os meus incrédulos, ele abriu os dele, em perfeito uníssono; e aqueles olhos brilharam dentro de mim, provocando um inevitável sorriso entre nosso beijo ardente. E lá nos deitamos, sua cabeça repousando em meu peito, como se ela, as orelhas e a mente houvessem penetrado meu seio. Minha mente romântica levantou vôo, imaginando como aquele garoto com mágica sensibilidade, abordaria um garoto como eu, e deitamos ali, até cairmos em sono.
Quando acordei, ele já não estava lá e uma sensação de vazio apoderou-se de mim... naquele momento eu sabia que nada fora real, que logo tudo desaparecia no nada. Mas ainda assim fui atrás dele; ele não podia deixar-me daquela forma, pensei; mas a verdade era que aquele momento com ele dera-me um enorme senso de possibilidade, esse insetinho que se instala em nossos corações sempre que algo sai da ordem natural.
Mais tarde o encontrei e com um abraço ele disse-me que amava o ex... deveria ter esperado isso: homens com histórico mais uma vez. E então ele disse: "mas estou com tanto medo de também me apaixonar por você, de ter qualquer fundação abalada, meu caminho linear embaralhado que me apavorei! Mas não partirei novamente... pelo menos agora..."
De repente, senti uma mão pesando meu ombro, olhei ao redor e nada vi; mas então olhei novamente e vi meu pai. Você tem alguma roupa para lavar, ele perguntou.
Estava acordado.
[Song: Cocoon - Björk]

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A Caçadora



Levou-me um mês para finalmente poder escrever sobre minha experiência com Björk no Rio de Janeiro. Esse bloqueio não é novo nem fonte de uma mente preguiçosa. Todo dia quando escuto suas músicas, eu reviso o show em minha mente e sinto de novo os arrepios e suspiros que aquele fatídico dia de outubro me causou. Quem saberia que depois de tanta bully do destino, eu, um dia, ficaria 12 horas numa fila para ver o passarinho islandês?
Na verdade, eu sabia, o mês anterior havia sido gasto planejando e sonhando aquele 26 de outubro e, logo cedo de manhã, Artur [meu amigo carioca e cicerone] e eu saimos da casa de nossos amigos, na Tijuca e fomos de metrô para a Cinelândia. Lá tomamos café-da-manhã e andamos até a Marina da Glória, onde o show aconteceria. Já encontrando 7 ou 8 pessoa lá, nos posicionamos na fila, para assim atingir nosso objetivo: ficar colado à grade, bem em frente a Björk, daí ela nos ouviria gritar que faríamos sexo com ela onde ela quisesse. Gastamos tempo dividindo nossas histórias de shows, analisando Björk e imaginando se ela chegaria de bicicleta, submarino ou pedalinho.
Às 20h, estava bonitinho e quieto no meu lugar desejado - bem no meio, em frente ao microfone dela, - mas na correria da entrada me perdi de Artur e ele foi parar um metro ou dois de mim; mas eu não me mexeria dali. Como me atreveria? O show de Antony And The Johnsons começou meia hora depois e foi um tanto decepcionante. Feist havia cancelado o resto de seus shows no Brasil, por causa de labirintite, então eles puseram Antony para substituí-la no Rio, portanto o show dele no palco Tim Volta foi de 30 minutos, mais o som não estava legal e a iluminação horrível. Ao menos ele foi bem simpático em sua timidez, e cantou The Crippled And The Starfish. Antony and The Johnsons é formado por um cello, violão, guitarra, um violino, uma viola e o piano de Antony - uma banda acostumada a tocar em teatros, então amei o que ele disse em relação à arena do Tim "é bem interessante tocar num lugar como esse. É como cantar contra o oceano."
Aquela foi uma frase tão Björkiana que não me senti culpado, por ficar satisfeito que o show dele foi tão pequeno. A ansiedade de finalmente ver meu D-us ao vivo começava a estourar por meus ouvidos e boca, ao contrário da tranqüilidade que senti o dia inteiro. Enquanto os holdies arrumavam o palco, podiamos ver Mark Bell e Damian Taylor montando suas mesas eletrônicas e programadores. De repende, todas as luzes se foram e a banda feminina de sopro, Wonderbrass, veio tocando a intro, Brennið Þið Vitar, instantaneamente seguida pela maravilhosa Earth Intruders.
Como a mãe Oceania, pisquei meus olhos e ela estava em minha frente, toda linda e petite com seu vestido de embrulho de natal dourado, e testa com gliter da mesma cor. Foi incontrolável; o longo e alto grito que saiu de minha boca foi simplesmente incontrolável - lá estava ela em minha frente e eu mal conseguia acreditar. Logo depois veio Hunter com suas novas batidas metálicas e arranjo de sopros [ao invés de cordas], e percebi quando ela pegou algo no chão e escondeu sob os babados do vestido; pelo fim da canção ela simplesmente formou uma teia... não consigo descrever, vocês terão que ver por vocês mesmos [no vídeo no topo do post].
E meu orgasmo foi crescendo gradualmente quando ela cantava Pagan Poetry e Unravel [uma canção que nunca sonhei em ouvir ao vivo], Jóga, Army Of Me e I Miss You. Não conseguia parar, e quando meu tema da Marina da Gloria, Wanderlust, foi tocado, eu estava estático e de boquiaberto. E então quando veio HyperBallad - eu sabia que o fim estava próximo. Ela cantou o primeiro verso e então pôs a mão na orelha e pediu que cantássemos o resto - certamente ela notou que cantamos todas as músicas do setlist. Então, a rave começou e junto veio Pluto e eu já não era eu mesmo! Me sentia como um maníaco impulsionado por aquelas batidas industriais e eletrônicas e lasers verdes; não dava para parar de pular, e ninguém ao meu redor pararia! Quem ousava era automaticamente movimentado pela multidão!!! A banda de sopros deu um tom ainda mais assustador à canção. E ela acabou assim que começou.
Eu estava viajando em êxtase, ainda não conseguia parar de gritar! Alguns ao meu redor choravam, mas eu estava muito hypado para chorar. Todos sabíamos que ela voltaria para o bis, então todos na arena - mais de 4 mil pessoas - batemos nossos pés no chão, fazendo muito barulho pelo retorno dela. E ela logo voltou, apresentando seus companheiros de banda e tocaram a altamente esperada Declare Independence. Tenho apenas uma coisa a dizer: MORI!
Artur me encontrou depois no mesmo lugar que estive durante todo o show. Não conseguia me mexer, eu não podia deixar aquele lugar! Era como se eu tivesse um desejo desesperado de tê-la de volta! Minha garganta nem existia, minha voz morrera com meu corpo, porque eu só estava em pé por inércia. Então saímos da arena roucos, cheios de confetes Björkianos nas bolsas, 4 reais mais pobres, devido à uma garrafa d'água, mas com um enorme sentimento de satisfação.
...era assim que se sente quando um sonho se realiza.
[Musique: I Miss You - Björk]

Volta Tour Videos


[The Pleasure Is All Mine - Rio de Janeiro]

[Declare Independence (part 1) - Rio de Janeiro]

[Declare Independence (part 2) - Rio De Janeiro]

[I Miss You - Glastonbury]

[Earth Intruders - Glastonbury]

[HyperBallad - Glastonbury]

[Pluto - Glastonbury]

[Army Of Me - Glastonbury]

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Genio!

"I mean, the human race, we are a tribe, let's face it, and let's stop all this religious bullshit. I think everybody, or at least a lot of my friends, are just so exhausted with this whole self-importance of religious people. Just drop it. We're all fucking animals, so let's just make some universal tribal beat. We're pagan. Let's just march."
Björk é D-us!
[Musique: Wanderlust - Björk]

quarta-feira, 25 de abril de 2007

A História de Isobel

Parte 1: Comportamento Humano
No breu da floresta brilhou a menor das faíscas. Deixe-me falar-lhes sobre faíscas. São raras as pessoas que realmente prestam atenção na magnitude dessas coisinhas; soa até como um oximoro, magnitude e faíscas, mas estas possuem um potencial que poucos se dão conta, ignorando que basta uma mínima faísca para explodir um galão de gasolina. Portanto, quando esta nasceu no ponto mais distante e hostil da floresta ninguém prestou atenção. Na verdade ninguém se deu conta da existência dela durante muito tempo.
A pequena faísca, apesar de se deparar sozinha no meio da mata, não se sentiu nem um pouco assustada com as gigantescas árvores e criaturas que habitavam com ela aquele ambiente. Honestamente, a faísca era jovem demais para saber o que era medo. Ela era como uma tabula rasa ainda esperando ser escavada e preenchida. Como eu disse, faíscas são pequenas e aparentemente insignificantes, mas esses conceitos são humanos e para esta faísca não havia problema algum em ser um quase nada na gigantesca floresta. Podemos dizer que a frase "ignorância é felicidade" funcionava em essência para a faísca, cuja única certeza contida na mente era o seu nome. Tal conhecimento era para ela o único mistério; no momento em que surgiu essa era a única coisa em sua mente e obviamente ela não fazia idéia do porquê seu nome era Isobel.
Por instinto ela simplesmente começou a caminhar, flanar por aquele universo que era seu lar. Isobel desconhecia o conceito de lar como nós o definimos, porém havia nela a sensação de que aquele espaço inteiro era seu, ao mesmo tempo em que a grandeza do local também a fazia pensar que, por contrário, era ele quem a possuía. Sentia como seu dever explorar e conhecer o âmago daquele grande parente desconhecido, entender suas nuances e vastas cadeias, até mesmo como uma questão de sobrevivência. Um dia enquanto caminhava por um lugar até então nunca visto, a minúscula centelha se deparou com uma claridade que ofuscava sua vista; ela percebeu também que nesse local os animais passavam por ela como se não a vissem, coisa que só acontecia nas trevas com alguns insetos, como traças e mariposas.
Isobel então vivia na floresta e com o passar dos anos ela a conhecia muito bem. Sabia a finalidade das ervas, o funcionamento das cadeias alimentares e das leis da natureza, o ciclo das águas. Sabia a língua de todos os animais com os quais convivia; eles foram responsáveis por muito do conhecimento que ela adquiriu. Por eles tomou notícia das mudanças bruscas que aconteciam na floresta e de um grupo de seres, que segundo os ursos, eram menores que eles ["e os ursos são os maiores animais que conheço”], porém comportavam-se como maiores que todo mundo, maiores até que a floresta. Eles também a contaram que esses seres, chamados humanos, viviam longe, bem depois das orlas da mata, mas que vinham aproximando-se numa velocidade incrível. Uma lagarta contou-lhe um dia que um desses humanos chegou a uma clareira e se apoderou dela como se nada ou ninguém estivesse antes por ali. ["Da maneira mais ridícula e insensata ele derrubou algumas árvores, inclusive moradias de algumas amigas minhas, que por pouco não morreram. Inclusive uma delas está morando comigo em minha folha e por Deus, Isobel, como ela come! Daí o humano construiu com as árvores uma caverna engraçada e mora lá desde então."] Aquela história assustou Isobel por um momento, contudo, com sua mentalidade de criança, ela não se preocupou muito. A floresta era grande demais e duvidava que um dia chegasse a encontrar esse tal humano. Mais tarde, um porco-espinho contou-lhe que o tal humano fora finalmente devorado por um urso, "depois que este encontrou aquele apontando uma vara que brilhava à luz e que fazia um estrondo horrivelmente ensurdecedor para um alce."
Chocada, Isobel percebeu que no fundo estava um pouco decepcionada porque não chegaria a conhecer aquele humano. No auge dos seus seis anos ela conhecia bastante a floresta e mesmo que a cada dia ela se surpreendesse com a mata ["um dia enquanto procurava ervas para um chá, me deparei com uma flor que nunca tinha visto antes. Era linda!!" - disse um dia a uma aranha com quem encontrara numa de suas andanças], a presença daquele tal ser humano que morava numa caverna de madeira fascinava-lhe e instigava uma coisa altamente comum e usual dentre os seres de sua idade: a curiosidade.
Semanas e meses depois, mais especificamente no dia em que faria sete anos que havia surgido no seio escuro da floresta, ela se deparou com uma clareira próxima à saída da mata. Como era seu sétimo aniversário, Isobel decidiu perambular por lugares onde ela com certeza nunca fora e de repente deparou-se com a dita clareira. E ali ela embasbacada encontrou a construção "engraçada" da qual a lagarta contara-lhe há quase um ano. Algo dentro dela entrou em erupção; um excitamento e um fogo que ela, não sabia dizer como, sentia-se maior que seu próprio corpo. A pequena, porém não mais tanto, faísca controlou aquele sentimento, mas não a sua vontade de dar um passo à frente e adentrar aquela caverna artificial.
Isobel não saberia descrever a sua emoção ao entrar naquele lugar. Era um misto da já comentada excitação com certo medo, combinados a uma ponta de tristeza. Por que tristeza, você deve se perguntar; como disse, nem Isobel saberia explicar ao certo, mas era certo até para ela que no momento em que ela entrou e fechou a porta atrás dela, sua vida mudaria para sempre e a tristeza bateu-lhe ao instantaneamente pensar na floresta.
Ela nunca mais saiu dali, a não ser para buscar comida e ervas nos arredores da cabana. Os animais até comentaram sua repentina ausência logo no dia de seu aniversário, alguns com um pouco de desdém, outros com sincera saudade, mas Isobel estava imersa e fascinada com aquele novo e pequeno universo que encontrara. Alguns animais a visitavam, geralmente traças e mariposas, ou ocasionais aranhas. Sempre que tais visitas ocorriam, ela conversava com eles como se nunca houvesse deixado seu convívio; e se divertia contando as coisas que vinha descobrindo sobre os humanos, com os objetos que encontrava na caverna. Alguns ouviam maravilhados, outros assustados e outros ainda com desdém natural de animais de sangue frio. Isobel contava-lhes sobre objetos de diversos tamanhos, repletos de folhas "um tanto porosas com símbolos inscritos."
Certa noite Isobel fitou mais uma vez uma interessante caixa de um material que ela não sabia identificar e que possuía duas longas antenas no topo. Desde que chegara ali aquela caixa causava-lhe espanto e por isso sua curiosidade em relação a ela era quase insuportável. Nessa noite ela simplesmente resolveu chutar o medo dentro dela e apertou um círculo que havia no canto direito da caixa. E como num passe de mágica a caixa se acendeu e uma infinidade de luzes, cores e sons foram transmitidos por ela. Isobel não sabia nem como reagir àquilo, ficou lá parada e boquiaberta em frente à caixa. Passado o estranhamento ela observou que as imagens mostradas pela caixa eram de seres bem parecidos com a descrição que os animais deram sobre os humanos. Ela passou a assistir àquela caixa diariamente, parando apenar para comer. De repente se viu falando como aqueles humanos na caixa, "finalmente aprendi a língua deles" ela pensava, e com o tempo aprendeu também a desvendar os símbolos escritos naqueles objetos, os quais ela descobriu que se chamavam livros.
Os livros, assim como a caixa, falavam basicamente dos humanos. As palavras engrandesciam-lhe e a preenchiam de conhecimento sobre aqueles seres tão estranhos: ora mal-humorados e de repente violentamente felizes. Na caixa, via seqüência de imagens que pareciam com os livros, porém eram chamadas de filmes; inclusive certa noite viu um que tinha mesmo nome e trama de um dos livros que lera. Eles falavam sobre uma mulher fascinante que morava no sul de um país e que enquanto acontecia uma guerra, ela perdia sua fortuna e depois a recuperava de forma triunfal. Isobel sentiu uma vontade de ser como aquela mulher, porém não queria enfrentar uma guerra. Fora a coisa mais assustadora que vira.
Assim como em alguns poucos livros da caverna, a caixa às vezes falava da floresta e dos animais. De maneiras bem estranhas e preconceituosas, ora altamente equivocadas, segundo Isobel e seu conhecimento. Havia até imagens, chamadas de cartoons, em que os animais falavam e se comportavam como os humanos; posteriormente ela percebeu que eles utilizavam animais com aquelas características para simplesmente falar deles mesmos. Aquele auto-centrismo, de alguma forma, a fascinava. "Como eles conseguem ser tão absorvidos neles mesmos com esse mundo enorme aí fora?", disse ela um dia para uma pequena serpente que a visitava. Esta a fitou com seus olhos de maneira bem entediada e misteriosa e disse "olha quem está falando! Você, desde que entrou aqui, está cada vez mais parecida com esses seres de que tanto fala."
As palavras daquele réptil atingiram-na como se ele a tivesse picado. Irritada, Isobel voltou para seus afazeres na caverna de madeira, mas aquela fala penetrava em suas veias como veneno. Ao cair da noite ela acendeu uma lâmpada e ao estender os braços para pôr a bacia d'água sobre a mesa, ela tomou um susto. Seus braços e mãos estavam iguais aos dos humanos na caixa! Ela aproximou-se da lâmpada que refletia sua luz na água e seu susto foi ainda maior ao ver que seu rosto também era idêntico ao dos humanos. Seria o veneno da serpente o causador daquela metamorfose? Ou seria ele, na verdade, um despertador? Será que ela sempre fora humana e só agora percebia?
Mas antes que chegasse a um quilômetro das respostas, sua atenção foi desviada para uma traça que de encontro à luz da lâmpada se debatia desesperadamente. Isobel começou a gritar com o inseto para que ele se desviasse da luz; tinha uma simpatia pelas traças, suas visitas mais constantes, e aquela parecia fadada à morte, pois não a parecia entender. Isobel então percebeu que ralhava contra a traça na língua dos humanos e ao esforçar sua mente para lembrar a língua daquele bicho, ela frustrava-se no branco do esquecimento. Até que a traça queimou-se na morte e caiu na bacia d'água. Isobel, estressada e triste, aproximou-se mais uma vez da água, fitando seu rosto refletido sob a traça morta.
Cansada ela retirou-se para sua cama e dormiu. Caiu num sono profundo e assustador; sonhou que foi comida por um urso e que agora morava em seu estômago. De repente ela foi acordada por um barulho estranho, que na verdade soava como uma cornucópia de sons. Ela levantou-se lentamente da cama e foi direto para a bacia sobre a mesa. A traça já não estava mais lá. Encucada ela aproximou-se e viu que sua imagem refletida era diferente da que vira na noite anterior! Olhou para suas mãos e braços e viu que eles cresceram. Olhou-se mais uma vez no espelho d'água e notou que seus cabelos também estavam enormes. Ela correu para um calendário pendurado na parede e constatou que anos se sucederam. Ela dormira com doze anos e acordara com dezesseis! A faísca explodiu-se numa chama.

[Musique: Human Behavior - Björk]