"...who'd have known, when you flash upon my phone i no longer feel alone"

- Lily Allen

BitchyList

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Isso é Importantíssimo!!

Acredito que até então todos os brasileiros têm acompanhado o caso de Geisy Arruda, estudante da universidade de facistas paulista, Uniban. Agora a Delegacia da Mulher vai entrar mais incisivamente na ação após a expulsão de Geisy da dita "universidade" e a União Nacional dos Estudantes juntamente com grupos de proteção às mulheres prometem manifestações na porta da Uniban.

Deixando de lado a dramatização "manoel-carlística" usual do brasileiro, é de grande importância que isso esteja acontecendo. Deve-se agora enxergar além do maniqueísmo ofensor/vítima e perceber um passo importante em direção a mudanças de paradigmas da sociedade brasileira.

Hoje mais cedo, uma amiga mandou-me via orkut o link de uma entrevista com o escritor João Silvério Trevisan, sobre a nova edição de seu livro Devassos no Paraíso. Em um trecho do livro, destacado pela IstoÉ, Trevisan menciona a famigerada confusão entre tolerância e hipocrisia feita pelos brasileiros. Isso me remeteu a um capítulo do livro Carnavais, Malandros e Heróis, de Roberto Da Matta, que li recentemente para a faculdade, sobre como o brasileiro esconde sua faceta mais preconceituosa atrás do "orgulho da mestiçagem" e, portanto, tolerante.

O texto desconstrói tal imagem através do culto brasileiro do "Você sabe com quem está falando?", sentença recorrente nas falas de praticamente todas as camadas sociais brasileiras que, juntamente com seu preconceito, é hipocritamente mascarada com o sorriso amarelo da [falsa] tolerância.

Da Matta, no capítulo supracitado, ainda cita comparações feitas pelo autor brasileiro Érico Veríssimo, em seu livro A Volta do Gato Preto, entre as sociedades brasileira e norte-americana; de forma análoga pode-se resumir as comparações com a honestidade americana quanto aos seus preconceitos, coisa que aqui fica perdida na hipocrisia do "povo alegre e tolerante." [Não louvo o preconceito americano, porém reprovo vigorosamente a hipocrisia brasileira.]

A história de Geisy versus o facismo endorsado e repercutido pela Uniban e seus clientes alunos é a prova do quão involuída a nossa sociedade ainda é. Protestos e investigações jurídicas contra a Uniban são mais que bem-vindos, especialmente num país que insiste em manter os paradigmas patriarcais e machistas de sua história.

Se eu morasse na grande São Paulo, eu certamente tentaria me deslocar com esses grupos para qualquer protesto contra esta pseudo-universidade, para que, principalmente, ela possa ser lembrada que uma Universidade, em sua essência, é espaço de discussões e aberturas ideológicas, não o reforço de paradigmas preconceituosos disfarçados de "princípios de dignidade e moral".

[Musique: Live To Tell - Madonna]

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Fazendo a Fama

Alguém hoje me disse que o passado é uma coisa que ainda me restringe muito. Alguém que pode estar dizendo o óbvio, afinal todo mundo tem restrições atreladas ao passado; essa foi minha primeira reação.

Mas então, o negócio bateu na cabeça que não pára e percebi um vazio proveniente de coisas que eu não deixo fluir. Meus entraves não me deixam relaxar e às vezes o presente se desacelera por causa de uma mania por auto-proteção que pode não passar de medo.

E aí, ao entrar no orkut de uma amiga dou de cara com isso:

"fogo artifício, a festa, o drama
quem explode é quem brilha
quem sacode é quem chama
e quem voa é do ar
quem se dá faz a fama
e ama"
Trecho de E Ama, da dupla Luli e Lucinda. Enfim, Lucas precisando relaxar... e não estou falando de férias, mas sim de muito trabalho!
[Musique: E Ama - Luli e Lucinda]

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Obsessão: Passo-A-Passo

É sempre assim comigo: minha mente toma as decisões bombásticas para melhorar a própria sanidade, mas o intervalo de tempo entre decisão e ação é sempre longo e cheio de eventos.

Primeiro vem o drama-queenismo, no qual eu reclamo da situação e a ansiedade proveniente da vontade genuína de resolvê-la, sabendo que a solução se encontra em algum lugar do meu cérebro, mas alegando não fazer idéia de como encontrá-la.

Depois entra o estágio de resignação: "well, já sei o que tenho que fazer, mas os passos virão naturalmente... relax no rush no pressure." Isso é seguido, mentira... concomitantemente há a obsessão velada em procurar nos confins do cérebro o roteiro de como as coisas devem ser feitas: as falas, as locações, os horários, os ângulos, o subtexto, as entonações... ou seja, CONTROL-FREAK!

Como o verbo "abstrair" é o verbo mais importante da língua portuguesa, nessa fase obsessiva eu me divirto mais. Encenações mentais de como se dará o processo, milhares de desfechos alternativos, busca das sintonias [horóscopos, textos cabalísticos, conselhos, sonhos, canções etc], "pseudo-abstração total" perante as pessoas [lucas diz: "ahh whatever, na hora vou saber"], tudo isso e mais um pouco faz parte da obsessão velada.

Mas um dia de repente, sem mais nem menos, eu acordo e tenho todo o processo iniciado e amarrado na cabeça. Desta vez foi um sonho quem me disse, juntamente com Whole Lotta History de Girls Aloud e o season finale de Gossip Girl. Mas ainda assim o ego quer local, momento e luz perfeitos, afinal, arianos ascendentes em Virgem fazem o drama mas têm de sair lindos e impecáveis na película.

[Musique: Dancing With Myself - Billy Idol (porque é mais animada e o ditado dos Narcóticos Anônimos é a melhor peça de filosofia que vi essa semana: fake it till you mean it.)]

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Cabala Dis

"Faça uma lista com seus desejos. Escreva tudo que vêm à sua mente, não importa o quão pequeno ou bobo possa parecer. [...] Sem saber seus verdadeiros desejos, você não tem muita chance em consegui-los. Então, seja honesto!"
["Quando o fizer, escreva ao lado de cada desejo, como você acha que se sentiria quando o conseguisse. O quanto mudaria sua vida?"]
- Um namorado que me ame o mesmo tanto que eu o amo. [Completude.]
- Uma boa relação com minha mãe. [Serenidade.]
- Ter paciência. [Duuh!]
- Pensar menos nas 50milhões de possibilidades da vida e trabalhar com o que tenho em minha frente. [Ser menos ansioso.]
- Continuar a ter amigos tão maravilhosos e engrandecedores. [Me sentiria mais calmo e confiante.]
- Ser um artista famoso. [Feliz em mostrar minha verdade para um grande número de pessoas.]
- Ver Madonna ao vivo. [Apenas feliz.]
- Passar pela Espanha sem dramas com a polícia. [Aliviado.]
- Ser menos pessimista. [Auto-confiante.]
- Ser mais forte e disposto. [Me sentiria mais vivo, menos entediado.]
- Ser menos preconceituoso e mais tolerante. [Mais aberto e abrangente quanto às relações humanas.]
- Ser tão auto-confiante quanto aparento ser. [Me sentiria mais honesto.]
- Viajar o mundo. [Sábio.]
- Ajudar a humanidade de maneira mais concreta. [Me sentiria menos culpado.]
- Fazer mais o que prego. [Me sentiria ainda menos culpado.]
- "To love and to be loved in return." [Mais uma vez: completude.]
[Musique: The Youth - MGMT]

sábado, 5 de julho de 2008

Engraçado...

... como nada está sob o controle de suas mãos e mente.
Essa semana conheci um garoto no orkut. A stalking life parece estar surtindo efeito e, apesar de continuar encalhadinho da Estrela, pelo menos tenho sentido um velho ini-amigo: o sentimento de possibilidade. Odeio, mas sou viciado nele - e de uma certa forma ele me faz bem; por mais que as possibilidades possam me levar de volta ao ponto de partida, o importante é a jornada.
Mas enfim, estou de paquere com esse garoto, a quem chamei para ir comigo num evento que uma amiga organizou. Dei meu número para que ele me ligasse confirmando a ida, mas meu celular nunca tocou e falhamos em nos falar pelo msn. Porém, ele estava avisado da festa, da minha presença e da minha vontade. Havia ainda esperança.
Enquanto a noite ia, Lucas se divertia cada vez mais com o fato de que apesar da neurose, a vida era e estava mais-do-que e além-da minha neurose. Era tanta gente que não via há tempos e tantas novas conexões sendo feitas que eu não tinha tempo de ficar me obcecando, apesar de constantemente pensar que ele poderia estar ali entre a multidão procurando por meu rosto familiar.
Aí pela noite coisas engraçadas e adoráveis aconteceram. "Momentos Woody Allen", como diz Jose, como ouvir de um amigo hétero que ele me acha tão incrível que já tinha até pensado em ficar comigo! Ou ouvir de pessoas que eu acabava de conhecer que no momento em que eu entrara no recinto, o ar mudou e parou para me observar passar. Rs, engraçado né? Mais ainda quando minha timidez entrou em ação querendo roubar o show, eu sabia que era meu ego se inflando. Não que eu devesse endorsar a boa alimentação dele, mas um obrigado caloroso era o bastante, fazer o modesto é o cúmulo do egocentrismo.
Mas enfim, isso leva a outro momento em que uma nova amiga, que disse ter um amigo afim de mim, me procurou perguntando o que o amigo dela deveria fazer para falar comigo. Aí eu fiz a Madonna e disse "if you wanna talk to me, that's exactly what you're gonna do, talk-to-me!" Rs não tão dramaticamente, mas basicamente eu disse que o amigo dela viesse até mim, puxasse papo e aí veríamos o que aconteceria. Ela me perguntou o que e como ele deveria falar comigo, e logo cortei dizendo "ahhh eu sei lá!" E eu realmente não sabia, eu não sei como as pessoas devem chegar em mim, elas que têm que saber disso, penso eu.
Posteriormente, eu e essa amiga finalmente conversamos sobre isso [meio que indiretamente] e ela disse que eu transpareço uma auto-confiança e suficiente tão grande e brilhante que, de uma certa forma, assusto as pessoas a ponto de elas não saberem como faLAR COMIGO OI Q/!!!!111!!!1! Comasim-vanessa que eu sou auto-suficiente! Beleza que eu sou auto-confiante no sentido de não abrir mão de como eu sou só porque não condiz com os padrões da sociedade; mas aparentemente isso é muito mais bombástico para as pessoas daqui do que eu imaginava. Rs.
Bizarro né? Mas no fim das contas é engraçado, porque eu e meus amigos já tinhamos falado sobre isso e quando alguém com quem eu não tinha uma convivência tão constante me disse isso, percebi o quão real era. Porém, comofas? Lucas certamente não vai deixar de ter suas strong balls para fazer com que as pessoas sintam-se mais à vontade perto de mim. Então, talvez, eu que deva fazer com que elas se sintam menos subjulgadas à mim? Talvez, eu que deva chegar junto de garotos e passar cantadas?
ME-DO! rs
[Musique: Fastlane - Esthero featuring Jemine and Jelleestone]

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Call 555-555-CONFIDE

Tem sempre aquela história de que quem faz Psicologia é porque tem problemas e está em busca de resolvê-los. Eu seria uma dessas pessoas se tivesse chegado a começar o curso de Psicologia que passei há alguns anos; mas que tem vezes que eu me sinto como o psicológo geral da nação, ahhh tem! Eu já me acostumei com o fato de ter nascido com uma placa de "mecomteselsproblems" na testa. E é dela que muitas vezes eu tiro minha experiência. Mas que experiência?
Diz-se que sábio é aquele que aprende com o exemplo alheio. Se for assim, eu sou um dos maiores gurus em relacionamentos que conheço. Sempre a mosca na parede dos relacionamentos dos amigos, Lucas fica só observando os comportamentos e ações das pessoas e quando os amigos vêm em busca de conselho, é engraçado, muitas vezes até pra mim, como ele sempre tem algo significativo a dizer [digo assim porque costumo receber feedback positivo]. E, pra ser honesto, é vero! Eu tenho ao longo da vida escutado tanto as lamentações romanticas de amigos que, aliadas a todos esse milhões de filmes e livros que eu leio, me faz gostar de pensar que eu realmente tenho alguma subtância no assunto.
Mas hoje, passando minha sabedoria a um amigo, me deparei com a auto-dúvida da demagogia. Será que essa minha vasta experiência observativa não faz de mim apenas um impostor? Afinal de contas, eu tenho tanta experiência prática no assunto quanto uma pré-adolescente. De crush a crush eu sempre sou o que acaba com o coração partido e as músicas bregas.
Hoje em dia eu nem reclamo; muitas vezes eu dou até garsas a g-d por achar que facilmente cairia na merda do "faça-o-que-eu-digo-não-faça-o-que-eu-faço." Contudo, há sempre os momentos em que você fica puto com todo mundo por ter algo que você sempre desejou e serem tão inéptos no trato com a coisa.
Porém, quem disse que eu saberei lidar? Meu amigo me disse que eu pareço estar preparado para quando vier, mas eu tô? Seila maaan!! Mesmo me achando por saber o que dizer para ajudar as pessoas, eu tenho dúvidas se terei a mesma sapiência quando chegar minha hora, já que automaticamente eu acabo sempre caindo nas mesmas armadilhas.
[Musique: Creator - Santogold]

quinta-feira, 27 de março de 2008

Xoxando o Amor

Depois que assisti ao filme Jules e Jim, do magnânimo François Truffaut, passei a pensar com mais afinco sobre relacionamentos amorosos e como nossas concepções são sempre tão lotadas de idéias incutidas no discusso geral desde que tomamos interesse pelo conhecimento.
Eu sou uma pessoa que nunca tive um relacionamento amoroso real que durasse mais que uma semana, ou que eu apenas achasse que fosse um. Então o que eu poderia dizer sobre relacionamentos? Falo deles na bela e cínica posição de observador; apesar de nunca ter namorado, eu acabo sendo o confidente de praticamente todos os meus amigos sobre seus problemas românticos. Talvez, porque eu veja um relacionamento amoroso como qualquer outro na vida, no qual você deve procurar dar mais do que se interessar em receber; talvez, por [sempre] ser a pessoa de fora com a visão da grande figura; talvez, por ser sempre a dama de honra nunca a noiva. rsrs
O fato é que por estar sempre pensando nessas coisas e escrevendo aqui e acolá sobre elas, comecei a considerar uma boa idéia escrever algo mais direcionado ao tema, um livro - talvez, com as reflexões do pária-mor do amor, que não deixa nunca de ser um idealista do tema.
[Musique: Le Tourbillon - Jeanne Moreau]

segunda-feira, 10 de março de 2008

Pelo Espelho...

...Tenho reparado como às vezes ele me olha por mais tempo que no passado recente. Ele não é meu reflexo, mas um amigo por quem tive uma queda ocorrida há pouco; quando a crush existia, o gaydacü mal me olhava e agora que me resignei da minha derrota, até mesmo porque ele anda por aí se lambendo com um gatão que desperta em mim a melhor das Alanis Morrisettes, não é esporádico pegá-lo em longas sessões de contemplação do meu destrambelhado jeito Diva de ser [e isso não tem nada a ver com drag-queens ok].
Obviamente há um misto de vergonha e convencimento quando percebo os olhares; mistão bem misturado a ponto de eu não conseguir identificar o sabor do queijo ou do presunto. Minha mente prepotente se liga no lado que gosta até demais de mim mesmo e pensa "ele só está reavaliando tudo que perdeu"; minha mente egocêntrica pensa "ele certamente está realizando o quão patético eu pareço."
Nesses tempos melodramáticos todo tipo de pensamento auto-detrator se instala como se todos os receptores das minhas células estivessem programados para ele. Portanto, já dá pra saber qual dos sabores perdura em minha boca.
Eu poderia dizer que o pessimismo vem do fato de esse mesmo cara ser o mesmo que me xoxou lindamente numa noite bêbada: numa bela demonstração do meu belo e amado amargor bitchy, ele vira para mim e diz "ah Lucas, você pode tentar, mas no fundo sei muito bem que você é um ser Romântico - todos sabemos." Meus amigos riram em gozação e eu me defendia... bingo: "oh these little defenses how they fail to comfort me, your hand pulling away and I'm devastated", né Miss Morissette?! Acho que ninguém sabia o quão profunda foi aquela alfinetada; uma coisa é saber o que no fundo sou [estou de brinks ok, não romântico*], outra é jogar na minha cara - na frente de todo mundo minia jënts!
Por outro lado mais verdadeiro, o fato de eu me sentir tão abalado a ponto de enrubescer [ninguém me disse, mas minha cara queimava] é marca da minha atual situação ultra auto-depreciativa; como diz a Cabala, "nós somos nossos piores inimigos" e, com certeza, no momento sou à lá Antony buscando um pouco de bondade e encontrando Hitler in my heart.
Contudo, tem passado do ponto de eu voltar a fazer a Alanis e decidir não me abandonar - certamente essas projeções irão parar de me picar.
*mentira...
[Musique: So Unsexy - Alanis Morissette]

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Inferno Astral

Inferno astral é o período de 30 dias que antecede um aniversário de uma pessoa. Senso comum sabe que ele consiste em todo tipo de merda que acontece na vida da pessoa. Astrologistas dizem que é quando um ciclo na vida de uma pessoa termina, por isso a bagunça emocional e [algumas vezes] racional. O inferno de Lucas começa 26.02 e ele já está se preparando pra caca.
Engraçado é que o Guia de Consciência Semanal da Cabala falou sobre ego e como devemos sempre mantermo-nos ligados em relação a ele; mas a primeira coisa que li sobre inferno astral tratava apenas de introspecção. Beleza, isso também é algo a ser feito - considerando que ter consciência inclui conhecer a si mesmo - mas talvez também seja tempo de olhar para grande figura também.
Foi quando achei outro texto que dizia:
Segundo o astrólogo Eduardo Maia, o "Inferno Astral" só acontece quando não percebemos que precisamos sair do palco para contemplar mais o mundo e nos desapegarmos, em benefício daqueles que precisam de uma ajuda emocional ou prática. "É um período de ser instrumento para o bem dos outros e não estar tão preocupado com causas próprias", afirma. Como isto geralmente não acontece, vem a angústia, o vazio e a sensação de desorientação. [Porto Do Céu]
Meu inferno astral termina 28 de março e até lá meu comportamento submarino usual será guiado por uma antena ligada às pessoas.
Soa contraditório: c'est moi na maior parte do tempo.
[Musique: Moving - Kate Bush]

quarta-feira, 25 de abril de 2007

A História de Isobel

Parte 1: Comportamento Humano
No breu da floresta brilhou a menor das faíscas. Deixe-me falar-lhes sobre faíscas. São raras as pessoas que realmente prestam atenção na magnitude dessas coisinhas; soa até como um oximoro, magnitude e faíscas, mas estas possuem um potencial que poucos se dão conta, ignorando que basta uma mínima faísca para explodir um galão de gasolina. Portanto, quando esta nasceu no ponto mais distante e hostil da floresta ninguém prestou atenção. Na verdade ninguém se deu conta da existência dela durante muito tempo.
A pequena faísca, apesar de se deparar sozinha no meio da mata, não se sentiu nem um pouco assustada com as gigantescas árvores e criaturas que habitavam com ela aquele ambiente. Honestamente, a faísca era jovem demais para saber o que era medo. Ela era como uma tabula rasa ainda esperando ser escavada e preenchida. Como eu disse, faíscas são pequenas e aparentemente insignificantes, mas esses conceitos são humanos e para esta faísca não havia problema algum em ser um quase nada na gigantesca floresta. Podemos dizer que a frase "ignorância é felicidade" funcionava em essência para a faísca, cuja única certeza contida na mente era o seu nome. Tal conhecimento era para ela o único mistério; no momento em que surgiu essa era a única coisa em sua mente e obviamente ela não fazia idéia do porquê seu nome era Isobel.
Por instinto ela simplesmente começou a caminhar, flanar por aquele universo que era seu lar. Isobel desconhecia o conceito de lar como nós o definimos, porém havia nela a sensação de que aquele espaço inteiro era seu, ao mesmo tempo em que a grandeza do local também a fazia pensar que, por contrário, era ele quem a possuía. Sentia como seu dever explorar e conhecer o âmago daquele grande parente desconhecido, entender suas nuances e vastas cadeias, até mesmo como uma questão de sobrevivência. Um dia enquanto caminhava por um lugar até então nunca visto, a minúscula centelha se deparou com uma claridade que ofuscava sua vista; ela percebeu também que nesse local os animais passavam por ela como se não a vissem, coisa que só acontecia nas trevas com alguns insetos, como traças e mariposas.
Isobel então vivia na floresta e com o passar dos anos ela a conhecia muito bem. Sabia a finalidade das ervas, o funcionamento das cadeias alimentares e das leis da natureza, o ciclo das águas. Sabia a língua de todos os animais com os quais convivia; eles foram responsáveis por muito do conhecimento que ela adquiriu. Por eles tomou notícia das mudanças bruscas que aconteciam na floresta e de um grupo de seres, que segundo os ursos, eram menores que eles ["e os ursos são os maiores animais que conheço”], porém comportavam-se como maiores que todo mundo, maiores até que a floresta. Eles também a contaram que esses seres, chamados humanos, viviam longe, bem depois das orlas da mata, mas que vinham aproximando-se numa velocidade incrível. Uma lagarta contou-lhe um dia que um desses humanos chegou a uma clareira e se apoderou dela como se nada ou ninguém estivesse antes por ali. ["Da maneira mais ridícula e insensata ele derrubou algumas árvores, inclusive moradias de algumas amigas minhas, que por pouco não morreram. Inclusive uma delas está morando comigo em minha folha e por Deus, Isobel, como ela come! Daí o humano construiu com as árvores uma caverna engraçada e mora lá desde então."] Aquela história assustou Isobel por um momento, contudo, com sua mentalidade de criança, ela não se preocupou muito. A floresta era grande demais e duvidava que um dia chegasse a encontrar esse tal humano. Mais tarde, um porco-espinho contou-lhe que o tal humano fora finalmente devorado por um urso, "depois que este encontrou aquele apontando uma vara que brilhava à luz e que fazia um estrondo horrivelmente ensurdecedor para um alce."
Chocada, Isobel percebeu que no fundo estava um pouco decepcionada porque não chegaria a conhecer aquele humano. No auge dos seus seis anos ela conhecia bastante a floresta e mesmo que a cada dia ela se surpreendesse com a mata ["um dia enquanto procurava ervas para um chá, me deparei com uma flor que nunca tinha visto antes. Era linda!!" - disse um dia a uma aranha com quem encontrara numa de suas andanças], a presença daquele tal ser humano que morava numa caverna de madeira fascinava-lhe e instigava uma coisa altamente comum e usual dentre os seres de sua idade: a curiosidade.
Semanas e meses depois, mais especificamente no dia em que faria sete anos que havia surgido no seio escuro da floresta, ela se deparou com uma clareira próxima à saída da mata. Como era seu sétimo aniversário, Isobel decidiu perambular por lugares onde ela com certeza nunca fora e de repente deparou-se com a dita clareira. E ali ela embasbacada encontrou a construção "engraçada" da qual a lagarta contara-lhe há quase um ano. Algo dentro dela entrou em erupção; um excitamento e um fogo que ela, não sabia dizer como, sentia-se maior que seu próprio corpo. A pequena, porém não mais tanto, faísca controlou aquele sentimento, mas não a sua vontade de dar um passo à frente e adentrar aquela caverna artificial.
Isobel não saberia descrever a sua emoção ao entrar naquele lugar. Era um misto da já comentada excitação com certo medo, combinados a uma ponta de tristeza. Por que tristeza, você deve se perguntar; como disse, nem Isobel saberia explicar ao certo, mas era certo até para ela que no momento em que ela entrou e fechou a porta atrás dela, sua vida mudaria para sempre e a tristeza bateu-lhe ao instantaneamente pensar na floresta.
Ela nunca mais saiu dali, a não ser para buscar comida e ervas nos arredores da cabana. Os animais até comentaram sua repentina ausência logo no dia de seu aniversário, alguns com um pouco de desdém, outros com sincera saudade, mas Isobel estava imersa e fascinada com aquele novo e pequeno universo que encontrara. Alguns animais a visitavam, geralmente traças e mariposas, ou ocasionais aranhas. Sempre que tais visitas ocorriam, ela conversava com eles como se nunca houvesse deixado seu convívio; e se divertia contando as coisas que vinha descobrindo sobre os humanos, com os objetos que encontrava na caverna. Alguns ouviam maravilhados, outros assustados e outros ainda com desdém natural de animais de sangue frio. Isobel contava-lhes sobre objetos de diversos tamanhos, repletos de folhas "um tanto porosas com símbolos inscritos."
Certa noite Isobel fitou mais uma vez uma interessante caixa de um material que ela não sabia identificar e que possuía duas longas antenas no topo. Desde que chegara ali aquela caixa causava-lhe espanto e por isso sua curiosidade em relação a ela era quase insuportável. Nessa noite ela simplesmente resolveu chutar o medo dentro dela e apertou um círculo que havia no canto direito da caixa. E como num passe de mágica a caixa se acendeu e uma infinidade de luzes, cores e sons foram transmitidos por ela. Isobel não sabia nem como reagir àquilo, ficou lá parada e boquiaberta em frente à caixa. Passado o estranhamento ela observou que as imagens mostradas pela caixa eram de seres bem parecidos com a descrição que os animais deram sobre os humanos. Ela passou a assistir àquela caixa diariamente, parando apenar para comer. De repente se viu falando como aqueles humanos na caixa, "finalmente aprendi a língua deles" ela pensava, e com o tempo aprendeu também a desvendar os símbolos escritos naqueles objetos, os quais ela descobriu que se chamavam livros.
Os livros, assim como a caixa, falavam basicamente dos humanos. As palavras engrandesciam-lhe e a preenchiam de conhecimento sobre aqueles seres tão estranhos: ora mal-humorados e de repente violentamente felizes. Na caixa, via seqüência de imagens que pareciam com os livros, porém eram chamadas de filmes; inclusive certa noite viu um que tinha mesmo nome e trama de um dos livros que lera. Eles falavam sobre uma mulher fascinante que morava no sul de um país e que enquanto acontecia uma guerra, ela perdia sua fortuna e depois a recuperava de forma triunfal. Isobel sentiu uma vontade de ser como aquela mulher, porém não queria enfrentar uma guerra. Fora a coisa mais assustadora que vira.
Assim como em alguns poucos livros da caverna, a caixa às vezes falava da floresta e dos animais. De maneiras bem estranhas e preconceituosas, ora altamente equivocadas, segundo Isobel e seu conhecimento. Havia até imagens, chamadas de cartoons, em que os animais falavam e se comportavam como os humanos; posteriormente ela percebeu que eles utilizavam animais com aquelas características para simplesmente falar deles mesmos. Aquele auto-centrismo, de alguma forma, a fascinava. "Como eles conseguem ser tão absorvidos neles mesmos com esse mundo enorme aí fora?", disse ela um dia para uma pequena serpente que a visitava. Esta a fitou com seus olhos de maneira bem entediada e misteriosa e disse "olha quem está falando! Você, desde que entrou aqui, está cada vez mais parecida com esses seres de que tanto fala."
As palavras daquele réptil atingiram-na como se ele a tivesse picado. Irritada, Isobel voltou para seus afazeres na caverna de madeira, mas aquela fala penetrava em suas veias como veneno. Ao cair da noite ela acendeu uma lâmpada e ao estender os braços para pôr a bacia d'água sobre a mesa, ela tomou um susto. Seus braços e mãos estavam iguais aos dos humanos na caixa! Ela aproximou-se da lâmpada que refletia sua luz na água e seu susto foi ainda maior ao ver que seu rosto também era idêntico ao dos humanos. Seria o veneno da serpente o causador daquela metamorfose? Ou seria ele, na verdade, um despertador? Será que ela sempre fora humana e só agora percebia?
Mas antes que chegasse a um quilômetro das respostas, sua atenção foi desviada para uma traça que de encontro à luz da lâmpada se debatia desesperadamente. Isobel começou a gritar com o inseto para que ele se desviasse da luz; tinha uma simpatia pelas traças, suas visitas mais constantes, e aquela parecia fadada à morte, pois não a parecia entender. Isobel então percebeu que ralhava contra a traça na língua dos humanos e ao esforçar sua mente para lembrar a língua daquele bicho, ela frustrava-se no branco do esquecimento. Até que a traça queimou-se na morte e caiu na bacia d'água. Isobel, estressada e triste, aproximou-se mais uma vez da água, fitando seu rosto refletido sob a traça morta.
Cansada ela retirou-se para sua cama e dormiu. Caiu num sono profundo e assustador; sonhou que foi comida por um urso e que agora morava em seu estômago. De repente ela foi acordada por um barulho estranho, que na verdade soava como uma cornucópia de sons. Ela levantou-se lentamente da cama e foi direto para a bacia sobre a mesa. A traça já não estava mais lá. Encucada ela aproximou-se e viu que sua imagem refletida era diferente da que vira na noite anterior! Olhou para suas mãos e braços e viu que eles cresceram. Olhou-se mais uma vez no espelho d'água e notou que seus cabelos também estavam enormes. Ela correu para um calendário pendurado na parede e constatou que anos se sucederam. Ela dormira com doze anos e acordara com dezesseis! A faísca explodiu-se numa chama.

[Musique: Human Behavior - Björk]

terça-feira, 24 de abril de 2007

Percebendo Woody Allen

Enquanto via Scoop, domingo passado, não me veio logo à mente o quanto eu amava Allen. Agora me dou conta disso e acredito que já vi o bastante [Annie Hall, Mighty Afrodite, Everyone Says I Love You, Match Point e "Scoop"] para elevá-lo ao posto de meu diretor favorito. Estou bem ciente de que ainda há muito a ser assistido, mas Scoop [ao qual alguns disseram ser descartável em sua carreira] me fiz rir de uma maneira que eu não conseguia há um bom tempo no cinema.
Sua presença é tão formidável [roubando cada cena em que ele aparece] que nos faz ter saudades dele, mesmo quando o resto do elenco é tão maravilhoso quanto. Ele representa o mágico Splendini e agora percebo como o papel combina perfeitamente com Allen.
Quando assisti "Todos Dizem Eu Te Amo", todas as sequencias se não me fizeram morrer de rir, me deram gigantes e bobos sorrisos. E ao fim, como se não fosse o bastante, o homem faz Goldie Hawn flutuar enquanto dança! Pura magia cinemática!! Em "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" [Annie Hall] me deliciei com aquelas cenas que já tinha visto várias vezes antes em outros filmes e até mesmo novelas, compreendendo que estava lidando com um ícone da cultura pop ainda recente e vívido. "Poderosa Afrodite", inspirado no teatro grego, me deu orgasmos num momento da vida em que estudava tal gênero literário. E em "Match Point" ele foi capaz de transformar Scarlett Johansson numa mulher ainda mais desejável, como se ela já não fosse o bastante.
A realidade em suas personagens é tão adorável e tangível; talvez porque ele se ligue no aspecto psicótico do comportamento humano e o trate com tão refinado e inteligente humor negro; talvez porque seus auter-egos auto-depreciativos são encantadores por essência; o negócio é o seguinte: quanto mais fodido for a personagem, mais próximo de nós ela parece ser. A química de Allen e Johansson em "Scoop" é deliciosa; eles parecem o mais natural que você pode ter num filme, nos dando a impressão de que na maior parte do tempo ele não estão fazendo nada. Talvez seja por isso que todos querem trabalhar com ele; deve ser bem desafiador parecer tão relaxado.
Quanto a mim, apenas desejo ser um quarto do gênio que ele é. Pretencioso? Talvez. Mas um menine não pode sonhar?
[Musique: A Good Thing - Saint Etienne]